sábado, 22 de junho de 2013

ESTADO DE CHOQUE

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Lá fora apenas o pio de alguma ave noturna oculta na escuridão. O céu sem lua tornava o ambiente pavoroso. Vez ou outra o cricrilar de um grilo ou o coaxar de sapos na lagoa um pouco distante dali. Eu, sozinha, esquecida naquele fim de mundo, cercada por mata nativa quase indevassável.

Lembro-me pouco de como cheguei até aquela casa abandonada. Quando dei por mim caminhava a esmo por uma estrada, afundando meus pés descalços na areia. Era o final da tarde e o crepúsculo revelava tons avermelhados no horizonte. O vento chicoteava-me com os grãos de areia. Por intuição decidi tomar uma trilha que adentrava a mata. Enquanto caminhava a noite cobria a vida com seu manto de seda negra. Afundei-me na lama diversas vezes, feri-me com espinhos e, atordoada, de medo e insegurança avistei a velha construção. A princípio acreditei ser a residência de alguém, mas o silêncio e a decrepitude revelou o abandono.

Aconcheguei-me como pude e o cansaço prevaleceu levando-me ao torpor do sono. Despertei com o voo de algumas borboletas sobre mim. Olhei a casa, examinei-a. Alguns móveis permaneciam. Alguns armários na cozinha, um sofá velho na sala, um guarda roupas e uma cama com um colchão surrado. Caixas se organizavam empilhadas. Sorri quando vi uma panela de ferro. Decidi organizar a casa, enquanto buscava nos porões de minha memória algum registro sobre o que estava acontecendo e o principal: quem era eu.

Com a ajuda de pequenos arbustos construí uma vassoura improvisada para tirar o pó e as teias de aranha que se acumularam. Andei ao redor, nas proximidades da casa, e localizei uma lagoa que me saciou a sede. A fome, contudo, me consumia. Olhei ao redor na busca insana de encontrar algo para comer. Vi alguns pequenos frutos muito rubros sendo devorados por um pássaro e me fartei deles. Tive vômitos e diarreia o resto do dia. Por sorte divisei um cacho de bananas.

Aos poucos me habituei. Passei a conhecer a mata, coletar frutos, ovos e pequenos animais. Intrigava-me quem se escondia dentro de mim. Olhava-me demoradamente no espelho d´água. Acariciava meu rosto, tentava descobrir-me. Nenhuma cena do passado, nenhuma lembrança, nenhum nome.

Naquela noite escura despertei sobressaltada. Ouvia um toque repetido como as investidas do pica pau no tronco de uma árvore, porém de forma ensurdecedora. Via pessoas e parecia que todas falavam ao mesmo tempo. Luzes coloridas se sucediam. Enfim, identifiquei-me. Moara. Esse nome ressoava. Todos me chamavam simultaneamente. Despertei num salto, perturbada e feliz. Sorri.

- Moara!, repeti várias vezes.

Uma tempestade se iniciava. Ventos fortes, truculentos, assoviando por entre as árvores, acompanhados por raios e trovões. Moara. Era o nome que acompanhava o assovio do vento. Passei parte da noite observando as árvores e arbustos serem chacoalhados e sendo aspergida pelas gotas frias da chuva.

Ao amanhecer deparei-me com um rapaz, nu, estendido em uma poça d´água. Estava embarreado. Fitei-o demoradamente. Tinha os cabelos louros, corpo bem feito e de pele muito clara, como se o sol nunca a tivesse atingido. Somente, então, preocupei-me. Poderia estar morto. Usei de toda minha força para despertá-lo. Ele abriu os olhos.

- Quem é você?, indagou, confuso e curioso.

- Moara, respondi sem pestanejar, ansiosa em revelar que sabia quem eu era.

Ele me olhou assombrado, levantando-se agitado sem importar-se por estar sem roupas.

- Você não pode ser Moara, disse quase que para si mesmo...

- Quem é você?, perguntei sem nada entender.

Ele olhou-me duvidoso, desacreditando do que estava acontecendo. Fiz sinal para que me desse às mãos e me acompanhasse. Ele o fez pacificamente, como que querendo proteção. Estava com muito frio e precisei cobri-lo com alguns sacos de estopa para aquecê-lo. Revelou que se chamava Rafael. Todas as suas ações denunciavam me conhecer, mas era nítida sua recusa em chamar-me de Moara.

Após alguns dias, sentindo-se mais forte, desapareceu. Ao amanhecer não estava mais lá. Fugiu nu como chegara e permanecera nesses poucos dias. Mergulhei em um estranho sentimento de solidão.

a solidão do mundo parece me aquecer
e nesse vácuo que me abraça, me aconchego
um estranho vazio que não preenche, um desassossego
uma dor que pulsa latejante e inquieta que não quer ceder

em cada canto em que me arrasto, na ânsia nua de me proteger
novo vazio se emoldura, mudo e cínico, se enclausura
engaiolando-me em um cesto  inefável de indiferença
e nessa apostasia me entrego, absorta, como se fosse marca de nascença

queria ser bolha de sabão vagando tola ao sabor do vento
revelando cores como se fossem minhas
frágil e fulgurante, resplandecendo como um cometa
e desaparecendo em milhares de gotinhas

emergindo dessa letargia queria conhecer-me, saber quem sou,
vasculhar-me pelos meus cômodos, porões e sótão
descobrir-me apaixonante em defeitos e qualidades
abraçar-me tal qual sou, um nome, uma vida, uma história.

Vi-me rascunhando com um carvão na mão um poema pelas paredes amareladas do casarão tão esquecido quanto eu mesma. Ele próprio não se reconhece. Pode ter tido seus momentos de glória e tudo faz parecer que um dia abrigou gente nobre. Assim como eu, talvez muita gente viva esquecida de si mesma.

O sol se fazia alto quando uma camionete estacionou na estrada e um grupo composto por quatro pessoas se aproximaram da casa. Uma moça me abraçou em prantos. Conduziram-me até o carro alertando que ficaria tudo bem. Pensei em resistir, mas pareciam boas pessoas.

No hospital um médico, já de idade avançada e sorriso contagiante, disse-me que presenciei o atropelamento de minha filha, entrando em choque.

- Moara não resistiu, informou ele.

Comecei a chorar sem saber por que.



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