terça-feira, 2 de julho de 2013

O Final dos Tempos e o Mendicante

 
 Em detrimento do que muitos pensam o mundo já esteve em risco muitas vezes. Civilizações emergiram vigorosas e se diluíram nas poeiras do tempo, deixando aqui e acolá uma pitada de seus valores disfarçados em cem números de esculturas, ditados populares, relações sociais e até mesmo a maneira de se interpretar o mundo.
 
Podemos nos remeter ao solitário Egito fincado entre desertos, a misteriosa India e seus templos magníficos ou os curiosos moais da Ilha de Páscoa. Os maias anunciaram, segundo alguns, a possibilidade de terminalização do planeta em 2012. Contagem regressiva, corações aos pulos e eis aqui estamos contando esta estória. O Sol continua iluminado apesar das explosões que periodicamente assolam sua superfície.
Uma viagem submarina, possivelmente, nos fará ficar frente a frente com cidades inteiras tragadas pelas águas. Templos, monumentos, residências, comércio. O fato é que tudo passa. Poderosos reis de outrora, assim como inacessíveis autoridades de hoje encerrarão seus dias em algum momento, seu reinado irá água abaixo, sem a necessidade de qualquer dilúvio ou chamas advindas dos céus que os consumam.
A promessa do fim e uma provável redenção da humanidade de certa forma aguça a curiosidade, faz refletir sobre as ações cotidianas e induz a posturas comportamentais e atitudinais mais sociáveis, colaborativas e cooperativas, intituladas de fraternidade, solidariedade e caridade, reservando-se os conceitos específicos de cada uma. Mas enfim, periodicamente destaca-se um alerta seja Nostradamus, os Maias ou o Apocalipse.
Lembro-me de Salazar, nem se sabe se realmente era seu nome, um andarilho maltrapilho e acatingado que vagava pelas ruas da cidade. Residia na Praça Central aconchegando-se no coreto com seu cobertor surrado para proteger-se do frio que, invariavelmente, pairava abraçando a tudo. Já pela manhã, com o calor do sol e o gorjeio das aves, ele despertava, se aprumava todo e iniciava seus longos discursos que aglomeravam ao seu redor algumas pessoas. Dissertava como ninguém os problemas sociais e familiares que feriam a vida das pessoas, as doenças avassaladoras veiculadas pela imprensa, as guerras, a fome, a violência. O fim do mundo estava eminente.
Para alguns era um santo, havendo sempre muitas moedas depositadas no chapéu, provavelmente ganho, e que denunciava ter pertencido a alguém de alta classe. Havia ainda que o levasse para almoçar em casa, não com o nobre objetivo de saciar a fome do mendicante, mas no anseio de conquistar bônus preciosos para futura avaliação no Juízo Final.
Em certa manhã, apesar do barulho das maritacas e o canto dos sabiás, Salazar não despertou. Jazia silencioso.
Mãos amigas e altamente interessadas no bem estar do falecido o depositaram em uma sepultura nobre, onde resplandecia uma estátua de bronze reproduzindo um dos seus incansáveis momentos de pregação.
Aos poucos placas de agradecimento foram surgindo parafusadas no túmulo denunciando graças alcançadas. Tornara-se uma alma milagrosa, objeto de visitação pública e comoção de seus devotos.
O mundo de Salazar que parecia ter findado, renascia. O mundo não acabou, mas transformou-se. De uma outra dimensão, talvez, o mendigo continua dispensando sua atenção e alertando que o fim está próximo.
 

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