Em detrimento do que muitos pensam o mundo já
esteve em risco muitas vezes. Civilizações emergiram vigorosas e se diluíram
nas poeiras do tempo, deixando aqui e acolá uma pitada de seus valores
disfarçados em cem números de esculturas, ditados populares, relações sociais e
até mesmo a maneira de se interpretar o mundo.
Podemos
nos remeter ao solitário Egito fincado entre desertos, a misteriosa India e
seus templos magníficos ou os curiosos moais da Ilha de Páscoa. Os maias
anunciaram, segundo alguns, a possibilidade de terminalização do planeta em
2012. Contagem regressiva, corações aos pulos e eis aqui estamos contando esta
estória. O Sol continua iluminado apesar das explosões que periodicamente
assolam sua superfície.
Uma
viagem submarina, possivelmente, nos fará ficar frente a frente com cidades
inteiras tragadas pelas águas. Templos, monumentos, residências, comércio. O
fato é que tudo passa. Poderosos reis de outrora, assim como inacessíveis
autoridades de hoje encerrarão seus dias em algum momento, seu reinado irá água
abaixo, sem a necessidade de qualquer dilúvio ou chamas advindas dos céus que
os consumam.
A
promessa do fim e uma provável redenção da humanidade de certa forma aguça a
curiosidade, faz refletir sobre as ações cotidianas e induz a posturas
comportamentais e atitudinais mais sociáveis, colaborativas e cooperativas,
intituladas de fraternidade, solidariedade e caridade, reservando-se os
conceitos específicos de cada uma. Mas enfim, periodicamente destaca-se um
alerta seja Nostradamus, os Maias ou o Apocalipse.
Lembro-me
de Salazar, nem se sabe se realmente era seu nome, um andarilho maltrapilho e
acatingado que vagava pelas ruas da cidade. Residia na Praça Central
aconchegando-se no coreto com seu cobertor surrado para proteger-se do frio que,
invariavelmente, pairava abraçando a tudo. Já pela manhã, com o calor do sol e
o gorjeio das aves, ele despertava, se aprumava todo e iniciava seus longos
discursos que aglomeravam ao seu redor algumas pessoas. Dissertava como ninguém
os problemas sociais e familiares que feriam a vida das pessoas, as doenças
avassaladoras veiculadas pela imprensa, as guerras, a fome, a violência. O fim
do mundo estava eminente.
Para
alguns era um santo, havendo sempre muitas moedas depositadas no chapéu,
provavelmente ganho, e que denunciava ter pertencido a alguém de alta classe.
Havia ainda que o levasse para almoçar em casa, não com o nobre objetivo de
saciar a fome do mendicante, mas no anseio de conquistar bônus preciosos para
futura avaliação no Juízo Final.
Em
certa manhã, apesar do barulho das maritacas e o canto dos sabiás, Salazar não
despertou. Jazia silencioso.
Mãos
amigas e altamente interessadas no bem estar do falecido o depositaram em uma
sepultura nobre, onde resplandecia uma estátua de bronze reproduzindo um dos
seus incansáveis momentos de pregação.
Aos
poucos placas de agradecimento foram surgindo parafusadas no túmulo denunciando
graças alcançadas. Tornara-se uma alma milagrosa, objeto de visitação pública e
comoção de seus devotos.
O
mundo de Salazar que parecia ter findado, renascia. O mundo não acabou, mas
transformou-se. De uma outra dimensão, talvez, o mendigo continua dispensando
sua atenção e alertando que o fim está próximo.

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