sábado, 16 de novembro de 2013

Presente de Natal

foto: Geraldo Bossini

Abriu os olhos sonolentos exigindo trabalho redobrado das pálpebras. Espreguiçou-se, lânguido, com um leve sorriso nos lábios. O calor das cobertas contracenava com o sol que aquecia tudo lá fora. Após a higiene pessoal, aguardava-o o solene café da manhã, repleto de opções apetitosas. Entre bons dias aconchegou-se ao seu lugar preferido. Rapidamente, Elvis, um spitz alemão, veio ao seu encontro no ímpeto de subtrair alguma guloseima.

Eduardo nascera de uma família tradicional, abastada, de nome respeitado em toda cidade. Desde pequeno percebeu o poder do sobrenome que carregava e da influência política de seu pai e antepassados. Estudava em colégio particular com aulas adicionais de inglês, francês e italiano. Como poucos de sua sala de aula, conhecia várias localidades da Europa. Cada detalhe o tornava mais admirado e fazer parte de seu círculo de amigos era algo disputado.

Distante dali, em uma casa muito simples, residia Lucas. Casa de chão batido fincada em meio a árvores frutíferas, rodeada por galinhas e seus pintainhos, além de Bonaparte, um vira-latas amistoso e bonachão. O quarto de Lucas não era apenas seu, sendo dividido com outros três irmãos menores. Em sua restrita privacidade exibia seus sonhos através de fotos recortadas de revistas e coladas na parede repleta de infiltrações. Automóveis, videogames, mansões e outros recortes que fitava enquanto permanecia estendido na cama. O pai, Otacílio, era lavrador, despertando na madrugada e retornando quando a noite já havia se instalado. A mãe chamava-se Cleide. Lavava e passava roupas.

Lucas acompanhara a mãe, algumas vezes, à bela casa de Rovigo Ancona, pai de Eduardo, em seu trabalho diário. O rapaz tratava Lucas com descaso, sempre esnobe e ignorando a presença do filho da serviçal.

Um dia, contudo, algo afetaria de maneira significativa essa relação. Retornando mais cedo da escola, Lucas decidiu ir até a casa dos Ancona encontrar a mãe. No caminho surpreendeu Eduardo que havia cabulado as aulas e o salvou, por um riste, de ser atropelado, enquanto se exibia para uma garota, distraído, atravessando a rua. O fato fez com que Eduardo enxergasse Lucas. A tensão inicial deu origem a gargalhadas e uma conversa animada que se prolongou por toda à tarde. A partir desse dia passou a cumprimentá-lo e, gradualmente, o inseriu em seu círculo de amigos.

Apesar da censura de Dona Cleide, Lucas passou a frequentar a casa dos Ancona. Aos finais de semana incluiu a piscina, passeios de carro e barzinhos. Vez ou outra Lucas passou a aparecer com roupas de marca. Presente de Eduardo, justificava.

Eduardo também recebeu alertas, veementes, de seus pais. Aquele rapaz não era pessoa para se conviver. Esclareceram que alguns colegas estavam o repreendendo por tal companhia e alguns familiares já os haviam procurado.

As intervenções dos pais enraiveciam e indignavam a ambos. Em breve outras reações eclodiram. Algumas garotas passaram a ironizar a relação entre os dois, colocando em cheque a masculinidade de Eduardo. Risadinhas, comentários zombeteiros, cochichos entre as colegas começaram a irritá-lo, a ponto de maneira descontrolada, Eduardo ameaçar fisicamente uma delas.

Por sua vez, Lucas passou a ser tachado como riquinho, em razão das roupas, tênis de marca e ser visto em locais não frequentados pelos seus colegas.

Dois mundos que se tangiam e faiscavam.

As pressões os separaram. Eduardo voltou às antigas relações, embora agora as considerassem superficiais e vazias. Lucas retornou à sua rotina, admirando as fotos da parede e relembrando os bons momentos vividos. Dona Cleide não se cansava de reforçar seu vaticínio: estava na cara que essa amizade não daria certo!

O Natal se aproximava. Comerciais de televisão enxertavam na memória de todos a data que se aproximava e que deveria ser regada a presentes. As lojas enchiam-se de luzes e cores, ofertas e papais noéis dos mais variados tipos. Falava-se muito em respeito, solidariedade, caridade tudo muito untado com músicas sentimentais e olhares piedosos. Na casa de Eduardo uma árvore soberba foi montada em espaço especial na sala de visitas. Discussões sobre a ceia, presentes e convites a familiares.

No bairro conhecido como “Galo Magro”, Dona Cleide enfeitava um galho seco de goiabeira com algumas bolas coloridas. Para a ceia teria lasanha, frango assado e maionese. Um luxo para eles. Mas havia espaço para mais gente e muitos familiares se reuniriam com algumas caixas de cerveja e batuque que prometia avançar pela madrugada. Apesar da alegria reinante, as muitas conversas animadas e gargalhadas, Lucas permanecia inerte em sua cama. As poucas economias lhe permitiram comprar um jogo de meias e cuecas em promoção. Tendo o presente em mãos dirigiu-se à casa do amigo.

Saudado por Elvis, o cãozinho, adentrou a casa rumo à piscina onde ouviu vozes e o barulho de pessoas que se lançavam na água. Eduardo o viu e correu até ele, chamando-o de louco.

Com as mãos trêmulas entregou-lhe o embrulho. Os olhos de Eduardo lacrimejaram. Embora fosse ganhar um carro no natal, aquele presente tinha um significado especial.

Ganhando espaços reservados levou-o para o quarto. Lá poderiam conversar tranquilamente. Lá também as censuras e bloqueios se romperam. Desajeitados e tímidos a princípio, foram dominados pelo desejo, sem entenderem exatamente o que os impelia um ao outro.

 De alguma forma, aquela tarde marcaria a ambos. Não apenas a efusão de hormônios juvenis; não apenas uma declaração contra a discriminação e a rejeição; não apenas um reencontro. Aquele natal marcaria um novo rumo na vida de cada um.

Logo após a luxuosa ceia e deixar a namorada em casa, o carro de Eduardo estacionou na viela escura diante da casa de Lucas, que o aguardava.

A noite teve a duração da passagem de um cometa.

- Que noitada, heim! Feliz Natal!, recepcionou Rovigo vendo o filho chegar em casa ao raiar do dia.
- Passou a noite com a Natália?, perguntou curioso.

- Não, respondeu o rapaz encabulado.

- Outra, então?! Esse menino puxou  ao pai... comentou o homem abandonando a sala de estar, rindo com satisfação.

Eduardo deitou-se. Acariciava dentro de si um segredo. Um presente de natal que não poderia revelar a ninguém.


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