Foto: Geraldo Gabriel Bossini
Ele era apaixonado pela
vida. Adolescente ainda oscilava entre duas paixões: o basquete e fotografia.
Era muito querido pelos seus amigos e seus pais. Tinha duas irmãs, Clara e
Eunice. Cultivado como uma planta rara, o “rapinha do tacho” mostrava-se como
um ser perfeito aos olhos daqueles que o amavam. Seu nome: Gabriel.
A cada dia mais se aproximava o momento da decisão, qual
a profissão que escolheria? Seus hobbies algumas vezes o tocavam profundamente,
em outras se esvaiam, emergindo uma dezena de possibilidades, que se diluíam
tão rápido quanto haviam surgido. De alguma maneira invejava alguns colegas que
notadamente demonstravam suas aptidões. O que desejava ser médico, advogado,
engenheiro, professor, psiquiatra...mas para Gabriel esse assunto era um vácuo.
Certa manhã reuniu os pais e irmãs. Sairia para uma
aventura. Com uma mochila nas costas e sua máquina fotográfica ganharia o
mundo. A conversa teve a dimensão de uma bomba atômica. Críticas, censuras,
medos, ansiedade, ameaças, lágrimas. Gabriel resolveu ouvir tudo e manter o que
se passava em sua mente. Estava consciente dos perigos e privações. Queria
arriscar, mesmo que se decepcionasse profundamente.
Em uma estação de ônibus conheceu Khenan. Um pouco mais
velho que ele, cabelos rastafári, bom de papo, alegre e descontraído logo
conquistou Gabriel. Estava indo para São Thomé das Letras, uma cidadezinha
mineira, repleta de encantos e magia. Foram juntos. Cachoeiras, neblina, casas
de pedra, lendas e belas fotos registraram seus momentos.
Aconchegado na Pedra da Bruxa teve um insight. Faria uma
exposição de fotos em sua cidade. Retornando para casa, adormeceu no banco do
ônibus. Ao abrir os olhos percebeu que estava acompanhado. Um passageiro
sentara-se ao seu lado. Uma conversa começou. Gabriel contou de sua viagem e
sua inspiração, falou da breve exposição. Entusiasmado o homem deu-lhe várias
dicas, como se conhecesse muito de fotografia.
A exposição “Cidade de pedra: caminhos de Thomé” foi um
grande sucesso. As fotos despertavam interesse e demonstravam a sensibilidade
de Gabriel em captar as imagens. Quase ao final chegou um homem bem apessoado,
de terno e chapéu branco, que logo Gabriel reconheceu. Era o homem que
conhecera no ônibus!
Seu nome era Tartys. Ele prenunciou a contratação de
Gabriel por uma grande revista fotográfica. De alguma forma o vaticínio se
concretizou. Três meses depois integrava o corpo de fotógrafos da empresa.
Nunca mais viu Tartys. No entanto, estranhamente detectava
sua presença em momentos importantes de sua vida. Entendeu tratar-se de seu
anjo da guarda.
A vida é repleta de mistérios e os anjos caminham entre
nós. Coincidências acontecem e se revelam na leitura de um livro, na frase dita
por uma pessoa, uma sensação de alegria e paz, ou mesmo uma conversa informal
com um desconhecido.
Talvez a estória de Gabriel seja apenas uma estória, mas
talvez nos faça abrir os olhos e perceber que os anjos estão tentando falar
conosco de inúmeras maneiras, bastando a intenção de querer ouvir...
Geraldo Gabriel Bossini
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